DEFICIENTE AUDITIVO, DEFICIENTE AUDITIVO IMPLANTADO E SURDO: UMA QUESTÃO DE IDENTIDADE

Desirée De Vit Begrow
Iasmin Urpia Borba

Vanessa de Almeida Moura e Santos
Universidade Federal da Bahia

Identidade é algo particular, dinâmico, em construção e em constante transformação. A identidade cultural, em especial, estabelece-se a partir do pertencimento a uma cultura (PERLIN, 2001) e das vivências do indivíduo (STROBEL, 2008). Historicamente a pessoa com perda auditiva é vista pelo prisma da deficiência, considerada desviante da normalidade idealizada pela sociedade, considerada como sujeito a ser “corrigido”. Consequentemente, esse indivíduo e sua família defrontam-se com resistências quanto à aceitação da deficiência, com estigmatização e patologização, que emergem questões como a impossibilidade de falar, falta de inteligência, incapacidade, entre outras, visto que a surdez suscita medo em relação ao desconhecido, uma vez que a maior parte da sociedade desconhece a língua utilizada pelos surdos, sua cultura e sua identidade. Destaca-se as consequências da opressão ouvintista sofrida pelos surdos, principalmente, quanto à identidade, que pode ser mascarada na tentativa de agradar ao colonizador. Contudo, além das imposições sociais do que é, ou não, aceitável percebe-se que existe uma diferença entre ser considerado “Surdo” e “surdo”, pois assumir-se em uma dessas formas significa assumir uma identidade, que se constrói a partir do próprio sujeito, do seu modo de ver o mundo e dos demais que o cercam. A motivação deste trabalho partiu das vivências no atendimento fonoaudiológico bilíngue prestado em clínica-escola da cidade de Salvador/BA, às crianças surdas e suas famílias, onde se observam dificuldades inerentes a esse processo de aceitação do diagnóstico, assim como a aceitação do sujeito Surdo e de sua identidade, sem enxergá-lo pelo olhar da deficiência. Por isso, o estudo objetiva discutir identidade cultural fundamentando através de revisão literária sendo possível compreender que ser Surdo, com “S” maiúsculo, reflete a negação da ótica da incapacidade e de deficiente, ou seja, negação do olhar patologizante, aceitação da diferença, compartilhando uma língua, ideias, costumes, crenças e hábitos do povo surdo. Esse olhar patologizante pode afetar diretamente a constituição subjetiva do sujeito, influenciando sua identidade, que acaba por assumir formas multifacetadas diante das fragmentações a que estão sujeitas, em virtude da presença do poder da comunidade ouvinte que sempre lhe impõe regras. As crianças implantadas, por exemplo, podem não estabelecer uma relação identitária com os ouvintes, já que o implante coclear não lhe confere o status de ouvinte, e nem se identificar com a cultura surda devido à privação do contato com a comunidade. De modo semelhante, a maioria das pessoas que se consideram como deficientes auditivos e usuários de aparelho auditivo são privados do contato com a comunidade surda e quando decidem por fazer, muitos já se encontram na fase adulta. Ambas situações retratadas podem levar a prejuízos na formação da identidade em virtude das dificuldades enfrentadas pela família no momento do diagnóstico e depois deste. Por isso, no caso de crianças com deficiência auditiva, assim como as que são candidatas ao implante coclear, o acolhimento e orientação aos pais que procuram o serviço fonoaudiológico, desde os procedimentos de diagnóstico, são relevantes para minimizar prováveis angústias e assim esclarecer dúvidas, orientando-os quanto aos possíveis caminhos a serem seguidos.

Palavras-chave: Deficiência auditiva; Identidade; Implante Coclear; Surdez.