CULTURA SURDA E FAMÍLIA OUVINTE: REFLEXÕES SOBRE A PRÁTICA

Desirée De Vit Begrow

Camila Lima de Sousa

Jéssica Antônia da S Moura
Universidade Federal da Bahia

A família é o núcleo primário, no qual seus participantes desenvolvem relações sociais, compartilham da cultura e valores de seus pares, resultando em um ambiente que propicia significado ao modo particular de desenvolvimento de cada criança (GUARINELLO, LACERDA, 2007). Contudo, observa-se que a família ouvinte com um filho surdo nem sempre consegue ocupar este espaço atuando muitas vezes como “reabilitadora” ou descomprometendo-se no processo de desenvolvimento do filho, principalmente pelo fato de grande parte dos familiares desconhecerem as possibilidades comunicativas para o surdo. Diante disso, este trabalho visa dialogar acerca das construções de cultura e identidade permeadas no seio familiar, a partir de reuniões em um Projeto de Extensão intitulado PAIS – Projeto de Acolhimento, Informação e Suporte à familiares de crianças surdas, realizado com os pais de crianças atendidas no serviço de Fonoaudiologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Foram desenvolvidas atividades como palestras sobre temas levantados entre os próprios participantes enfatizando organização familiar a partir do nascimento do filho surdo, recursos tecnológicos auditivos e educação/escolarização da criança surda, exibição de filmes para sensibilizar os familiares às temáticas e também rodas de conversa, a fim de propiciar às mães ambiente para manifestação livre sobre suas angústias e temores com relação aos filhos surdos, configurando-se como um espaço de escuta diferenciada que contribui para mobilizá-los e empoderá-los sobre o desenvolvimento da criança além de favorecer a troca de experiências entre as mesmas. Também foram desenvolvidas Oficinas de Libras, ministradas por intérpretes (voluntários no serviço) buscando aproximar os familiares da língua e cultura dos filhos surdos. A partir destas ações foi observado que mesmo que as mães reconheçam a importância da Libras para a comunicação com os filhos, há certo desconhecimento das questões culturais e identitárias do povo surdo. Isso é evidenciado pela dificuldade de compreensão sobre a preferência da criança surda pelo uso da língua de conforto e não a língua imposta pela maioria ouvinte, também pelas resistências no seio familiar para aprender a LS, entendendo a necessidade de uso da língua apenas em questões básicas do dia a dia, corroborando para o não envolvimento de todos os membros da família com a criança surda pelo entendimento de que é papel da mãe cuidar do filho deficiente. Outro aspecto que é evidenciado neste sentido é quanto à necessidade de uso do aparelho auditivo na crença equivocada de que este pode “curar” o filho que não ouve e assim torná-lo ouvinte. Estes fatores mostram-se relevantes no sentido de que negam a cultura surda, submetendo à cultura majoritária. Desta forma, mesmo que as famílias pertençam a uma cultura ouvinte da qual os filhos não podem partilhar, as atividades desenvolvidas promovem uma aproximação maior de forma que facilitem a compreensão de que os filhos em sua diferença linguística constituem-se culturalmente a partir de sua experiência visual o que não o afasta de conviver com a cultura ouvinte desde que tenham respeitadas suas especificidades linguísticas, sociais, políticas e culturais.

Palavras-chave: Cultura – Identidade – Surdez.